Um dia pensei que ser poeta
fosse pegar palavras e rimar.
Rimei duas. Certo. A continuar,
rimei mais. A cada rima correta
um passo, mas era de estranhar
que a estrofe rimada assim, reta,
não era uma poesia, mas a abjeta
pretensão de quem quis cantar
sem ter em si qualquer emoção.
Rimado, mas sem algum sentimento,
Frases que eram levadas pelo vento.
Até que o dei pra ouvir o coração,
pensar com amor e viver com alegria
e desde então fui escrevendo poesia.
Francisco Libânio
Pra quem mora no interior, mesmo numa cidade grande como é Prudente, tem certas coisas que marcam. Ok, este cronista nunca viveu no campo, mas como quase todas as pessoas da cidade (pelo menos, os de sua geração), ele já passou, pelo menos um dia, fora da cidade em contato com a terra. E isso é muito nostálgico.
O dia hoje está abafado, há um branco no céu que induz a chuva e é o que se espera. Primeiro para refrescar o dia quente, mas também para que a água caia no jardim da casa e deixe vir do chão o delicioso cheiro de terra molhada, cheiro que lembra a infância do cronista. Cheiro que desperta a pueril vontade de tomar banho na chuva, deixar que essa água gratuita inunde uma alma citadina demais e faça florescer lembranças de um tempo bom. Por enquanto, tudo o que temos é calor, mas a chuva é possível. E que venha. Ando precisando demais disso.
De tanto ver a tenista Ana Ivanovic, pôs na cabeça que iria se casar com uma sérvia nem que fosse preciso morar nos subúrbios de Belgrado. Mas não queria uma sérvia qualquer. Tinha que ser, no mínimo, igual à sua musa. E ponto final. Só havia um problema: Onde morava, em Pirapozinho, sérvias não se encontravam em qualquer esquina. Mas não era problema. Ele queria uma sérvia e pronto! Os amigos tentavam dissuadi-lo da ideia absurda, apresentavam amigas bonitas, morenas como a tenista, mas que nada. Não tinha conversa. Queria uma sérvia. Um amigo seu mais afastado e fã de internet resolveu ajudar e, pela Grande Rede, encontrou quatro sérvias. Não falava a língua delas, mas desenferrujou o inglês com elas. Esse era o problema. O rapaz também não falava nem bom dia em sérvio. Nem procurou aprender. Queria uma sérvia e não falava uma palavra no idioma delas. E as meninas que o amigo encontrou também não falavam português, mas mesmo assim, ele colocou as pontas em contato. Conversando com elas, convenceram-na a tomar um avião Pra o Brasil e um ônibus para o recanto paradisíaco do interior, O encontro foi engraçado. As meninas gostaram do rapaz, que também achou as moças interessantes. Conversaram, jantaram ele, elas e o amigo, que servia de intérprete. Os amigos achavam engraçado o rapaz saindo com quatro sérvias e escolher entre elas uma pretendente. Nenhuma era como a Ana Ivanovic e também não sabiam jogar tênis. Gostavam de vôlei. Mas elas não se incomodavam. Ele também não era um Kaká, a quem achavam um gatinho, nem no biótipo menos no futebol. Um dia, ele e as meninas desapareceram. Os amigos souberam pelo amigo que serviu de ligação entre eles que os cinco foram dar um passeio pelo Brasil. Conheceram as praias do Rio de Janeiro e do Nordeste, o Pantanal e a Amazônia terminando por São Paulo. Uma grande diversão para todos. Quando reapareceu, o sujeito veio sozinho sem nenhuma das suas sérvias. - O que aconteceu? – Quiseram saber. - Não deu certo. Elas são maravilhosas, lindas, mas nenhuma delas era parecida com minha musa. Não vai rolar. Também desisti de querer casar com uma sérvia. Até porque ando acompanhando muito atletismo e virei fã da Isimbayeva. Os amigos deram um tempo. Se viesse com ideia de casar com uma saltadora russa, mandariam interná-lo no hospício. E ele nunca mais falou em namoro com ninguém. Francisco Libânio, 24/10/10, 3:15 PM
Francisco, enfrenta o Mundo com garra, Não que ele seja um inimigo imbatível, Ele é duro, tem marra e por isso é temível, Mas o segredo é superá-lo na marra
Não te esqueças, Francisco, no entanto, Que o Mundo é duro, mas não inimigo, Ele te oferecerá desavenças e perigo, Mas saberá parar e enxugar teu pranto.
Isto porque o Mundo tem tantas faces E milhões de mãos violentas e brandas Além de amigos serem o mundo também
Mas é preciso enfrentá-lo e que traces Táticas para dobrá-lo para ti. Vai, anda, Francisco, que o Mundo é teu também. Francisco Libânio, 26/10/10, 8:14 PM
Tu, que em tua singela feminilidade, Depuraste o que é só das mulheres, Ser amiga, ser fiel e exalar lealdade, Ser simples e exercer teus deveres
De mulher e outros tantos, na verdade, És imperfeita para os vazios quereres Dos imperfeitos na superficialidade, E és a perfeição entre todos os seres
Amas com o coração fazendo saber Quando e quem amas sem excessos, Sem furores e ao mundo és discreta
Sublimas teu amado, fazes completa A união e tudo isso paga certos preços Que eu, ao te amar, custo a entender. Francisco Libânio, 08/10/10, 2:17 PM, Macaé
- Bom, seu Anésio, pelo que pudemos verificar numa breve pesquisa sobre o senhor é que o senhor tem hábitos bem pouco cidadãos.
A essa afirmação, ele olhou de testa franzida a moça que lhe passou isso. Esperou estranhado as acusações que viriam ao desdobrar do papel contando seu nome. Ouviu:
- Aqui consta que o senhor tem o hábito de estacionar seu carro na vaga especial de deficientes no supermercado da cidade...
- Coisa rápida, querida. Cansei de andar por aquele estacionamento lotado e ter três vagas vazias reservadas a deficientes e nenhum deficiente fazer uso delas. É tão rapidinho que eles podem esperar.
- ... E que quando o senhor não consegue estacionar nessas vagas porque outro o fez, o senhor ocupa as vagas reservadas aos idosos.
- Linda, eu tenho cinqüenta e sete anos, praticamente um sexagenário, estou aposentado há quatro. Já não sou nenhuma criança e muito menos um rapazola. Creio estar no meu direito. O que é idoso pra vocês? Acima de cento e vinte anos?
- Também consta aqui que o senhor é reincidente em parar o carro em vagas de ambulância nas proximidades da Santa Casa. Inclusive, por causa disso, o senhor perdeu alguns pontos na carteira, confere?
- Confere, claro que confere. Mas isso foi culpa da impaciência do guarda. Eu não tenho culpa se sempre que passo perto da Santa Casa eu me lembro de comprar cigarros no bar. É coisa que não demora dez minutos. Numa delas, eu estacionei logo depois da ambulância sair. Certamente ela iria demorar e quando voltasse, eu já estaria em casa.
- Sim, mas o senhor reconhece que o senhor não pode fazer isso?
- Poder não pode, mas todo mundo faz. O problema é que tem um urubu na minha sorte. Acontece isso mil vezes por dia e só eu sou multado. E nem adiantou oferecer uma cerveja pro guarda que ele não aliviou.
- Então quer dizer que além de cometer uma infração o senhor confessa que ainda tentou subornar um policial?
- Suborno é uma palavra muito feia, filha. Quem suborna é são esses caras safados que oferecem uma grana preta pra conseguir um benefício próprio. Eu só quis que o polícia fosse camarada comigo para que ele não se estressasse com coisa pouca nem estragasse meu dia.
- E o que o senhor diz sobre o fato de jogar lixo no terreno que seu vizinho usa como área de diversão pros filhos? Há inúmeras reclamações dele contra o senhor.
- Esse imprestável tem um terreno baldio pra criar cobra e rato, moça. Ele tem lá uns brinquedos para disfarçar. Aquilo é esconderijo pra vagabundo. As crianças brincam lá só aos sábados e domingos. Na sexta o lixeiro passa e pega. Ele quer é arrumar confusão pra minha cabeça.
- Bem seu Anésio, há ainda algumas outras coisinhas aqui contra o senhor, mas vamos passar para as coisas grandes. O senhor já cometeu algum crime?
- De jeito nenhum! Crime de matar e roubar? Nunca!
- Pelo que vejo, sua situação com a Receita também está em dia. O senhor declara seus bens pro Leão?
- Todos eles. A gente faz um xuxo aqui e lá, mas meu nome tá tranqüilo com a Receita Federal. E as outras também. IPTU pago com um atrasinho, mas coisa pouca.
- Bom, como o senhor é comerciante, crime próprio, peculato, improbidade, essas coisas... Nada consta. O senhor nunca trabalhou como estatutário?
- Jamais. É graças a minha honestidade que eu quero mudar de vida e fazer alguma coisa pela minha comunidade.
- Pois muito bem – e a moça bateu o carimbo – aqui está sua admissão. Sua ficha é de fato, limpa, o senhor é, oficialmente, candidato a deputado estadual e seu número de campanha é esse que o senhor escolheu 99899.
E saiu do Departamento de Pesquisa Pessoal Para Admissão Política já pensando num jingle e em como poderia reformar sua casa caso ganhasse a eleição.