sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Simplicidade


Simplicidade é uma flor branca num jardim colorido
Todas as outras flores vestidas de gala, de modelos
Diversos se esforçando para que possam vê-los
Enquanto o branco poderia passar despercebido

Mas não passa. Este branco envolto de tanta pureza
Atrai olhares e deixa de lado o colorido das flores
Faz ser menor todo o arco-íris e todas as cores
E tonalidades somem diante da simples beleza.

Assim é meu amor. Nem as cantigas nem as poesias
Rebuscadas de palavras pomposas que não conheço
Tem em sua erudição um fiapo do meu apreço
Posto no eu-te-amo que te dou todos os dias.

Francisco Libânio,
06/08/10, 12:07 PM

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

75 - Coisa mesquinha que é isso chamado saudade!


Coisa mesquinha que é isso chamado saudade!
Mais que isso, ela é manipuladora e oportunista
Porque faz de tudo de bom que alguém conquista
Uma tristeza distante. E com requinte de crueldade,

Ela ainda faz com que tudo o que nos faz bem
Seja objeto de aversão. Então põe tal lembrança
Misturada com todo o medo e toda desconfiança
E o resultado dessa mistura nos leva nunca além

De tudo o que não queremos sequer imaginar. Lá
A mente se debate contra tudo o que de pior há
E a saudade nos vence, mas sua maior fraqueza

Está aos nossos olhos. Ela é infinitamente inferior
Às nossas lembranças e baixinha. Então basta pôr
Todas elas ao alto e não lhes alcançarão tal vileza.

Francisco Libânio,
02/08/10, 8:09 PM

quinta-feira, 22 de julho de 2010

73 - Meu lado poeta sofre por amar inspirado


Meu lado poeta sofre por amar inspirado
E dessa inspiração expirar os versinhos
Que saem do meu peito por ela apaixonado
Transformando em palavras os carinhos

Mas se sou poeta e escrevo é culpa dela
Que é linda e me inspira tanto a escrever
E é quando eu me pego a desenvolvê-la
Em rimas que ela vem falar sem me ler:

- Você não me dá atenção, não fala comigo,
Não me beija nem me abraça. Sabe, duvido
Até mesmo que você me ame tanto assim

E deixo meu lado poeta de lado e me obrigo
A amá-la como ela pede. O verso interrompido?
Que espere. Outra hora eu lhe arrumo algum fim.

Francisco Libânio,
22/07/10, 9:39 PM

terça-feira, 20 de julho de 2010

Dia do Amigo


Assim que acordou e ia ao trabalho, Geraldo abriu a porta de casa e deu com uma bela e farta cesta de café da manhã à sua porta. Pensou ser trote de algum desocupado, prêmio de algum sujeito pródigo e logo voltou à realidade quando leu o bilhete que vinha junto com o inesperado presente:

Ao meu querido Geraldo pelo dia de hoje do sempre estimado amigo Rui

Ora, o Rui era um colega de repartição. Trabalhavam juntos há anos, conversavam às vezes, mas pouco. Amigo era querer demais. Sabia que o Rui era uma pessoa difícil. Os convivas comuns e mais próximos diziam que era intratável quando estava naqueles dias mordidos. Mas pessoalmente, com ele, Geraldo, nunca nenhum problema. Fora uma vez ou outra que se encontravam fora do prédio e ele fazia que não conhecia. Rui, com sua família – devia ser família, mulher e duas crianças –, não parecia que esquecia do mundo. Devia ser um grande distraído esse Rui. Trouxe a cesta para dentro de casa e fez, com ela, o café da manhã mais abastado de uns bons tempos. Na verdade, o segundo do dia. Isso roubou alguns minutos lembrados pelo ponto. Estava atrasado, mas valeu a pena.

Foi procurar Rui que, ao vê-lo, foi só mesuras. Um abraço apertado:

- Geraldo, meu velho! Recebeu meu presente?

- Sim, obrigado.

- Não agradeça. O que não fazemos pelos amigos?

- Mas deve ter doído no bolso...

- Dor nenhuma, meu camarada. Precisamos nos unir mais. Percebeu como essa repartição é? Trabalhamos há tantos anos juntos uns com os outros e nem sabemos direito os nossos nomes. Andei pensando nisso a semana toda. Precisamos fazer dessa casa uma casa de verdade, um lugar em que não nos vejamos como colegas de trabalho, mas como amigos.

Nunca imaginou ouvir tudo isso do Rui. Na verdade, nunca imaginou ouvir nada do Rui que não fosse um bom dia e um até logo no elevador. Mas ele buscou em sua mente. Rui estava tinindo de razão. Às vezes aquelas mesas próximas pareciam guardar uma verdadeira odisseia de distância afetiva e humana. Quem eram seus amigos em tantos anos de labuta? O Queirós? Mas o Queirós nunca tinha ido à sua casa. O Renato? Mas o Renato, que já fora à sua casa, nunca o chamou pra ir à dele embora vivesse com aquela ladainha de “precisamos nos visitar”. Percorreu todos. O Nogueira, o Ramiro, o Mendes, puxa... O Mendes quase foi padrinho do seu filho e hoje mal trocavam uma palavra na hora do cafezinho. Realmente, aquele departamento era mesmo um deserto de intimidades. O Governo trabalha tanto pra reciclar empregados e atitudes e nunca pensou em nada disso. Foi preciso um dos empregados mais sisudos e calados dar essa sacudida. Conversou com alguns colegas, que também receberam, senão uma cesta, uma garrafa de vinho ou, no caso das mulheres, um ramalhete de rosas. Todos estavam surpresos com o que o Rui fez. E todos concordavam que estava mais do que na hora daquele grupo de trabalho se unir e ser mais coeso. Durante aquele dia, recebeu mais cumprimentos do que todo o bimestre. Geraldo percebeu que a atitude do Rui contagiou mesmo o ambiente. Não entendia, no entanto, o lance do “dia de hoje”. Era alguma data especial e ele não sabia? Não pensou muito nisso. Voltou pra casa e contou que o clima no serviço estava como há muito ele não via.

No outro dia, ao topar com o Rui, resolveu vestir a camisa do seu propósito e partiu para um abraço como o de ontem. Estranhamente, Rui se esquivou. Disse que estava com pressa e depois conversariam. Foi o mesmo com todos os outros. Pouco a pouco, a aura positiva do dia anterior foi esmorecendo. A repartição foi voltando ao normal e ficando a mesma pasmaceira de sempre. Geraldo sentiu falta da festa que teve no dia de ontem. Foi quando pegou da pasta o cartão que Rui mandou. Leu atrás o que não tinha lido:

- Feliz Dia do Amigo.

E amassou o papel jogando-o longe mandando pro espaço essa amizade de dia marcado. Prometeu que jamais daria a mão ao Rui, esse canalha escroque que, para ódio de Geraldo, lançou-se candidato à Câmara Municipal, como se descobriu depois.

Francisco Libânio,

20/07/10, 9:13 PM


quinta-feira, 15 de julho de 2010

Das compatibilidades


Tudo bem, ninguém é igual a ninguém
E o ser humano é um estranho ímpar
Mas se não fosse a arte de nos adequar
Seríamos a exata metade de quem?

Francisco Libânio,
15/07/10, 5:17 PM

quarta-feira, 14 de julho de 2010

71 - Enquanto lá fora a manhã fria


Enquanto lá fora a manhã fria
Reinava em ventos sibilantes
Em minha cama ela me fazia
Esquentar enquanto amantes

Lá fora, o céu de cinza se tingia,
O frio fustigava os andantes
Enquanto tudo em nós ardia
Em abraços muito confortantes

E lascivos porque aquele frio
Mesmo sorrateiro tinha tomado
Toda nossa casa menos o estio

De nosso leito até que, resignado,
Resolveu ajudar a apimentar o cio
Mantendo nosso conjunto abraçado.

Francisco Libânio,
14/07/10, 5:58 PM

terça-feira, 13 de julho de 2010

Tântrico


Toma-me em teus braços enquanto faço
De ti a menina que quero dar colo e cheiro;
Abraça-me e me beija. Envolve num laço
O teu amante, eu, num amor por inteiro

Não ligue para as horas, deixe o compasso
Do tempo caminhar assim passageiro
Enquanto nossos corpos buscam espaço
Um no outro num calmo ir e vir. Um tabuleiro

De xadrez se abre. A cada movimento
Nosso, um suspiro precede uma ansiedade
A espera do que o outro tem em mente,

Assim amamos, calma e pacientemente
Até a hora em que o amor vem e invade
Prolongando o bem para além do momento.

Francisco Libânio,
13/07/10, 1: 13 PM