Um dia pensei que ser poeta
fosse pegar palavras e rimar.
Rimei duas. Certo. A continuar,
rimei mais. A cada rima correta
um passo, mas era de estranhar
que a estrofe rimada assim, reta,
não era uma poesia, mas a abjeta
pretensão de quem quis cantar
sem ter em si qualquer emoção.
Rimado, mas sem algum sentimento,
Frases que eram levadas pelo vento.
Até que o dei pra ouvir o coração,
pensar com amor e viver com alegria
e desde então fui escrevendo poesia.
Francisco Libânio
Por viver do amor E no amor esperar Arrependi-me, até, Quando foi menor A crença em achar, E a vida que nele a fé
Mas agora, comigo, O amor oferece leito, Faz em si meu abrigo E ensina seu preceito
Talvez não seja o certo Nem da vida o melhor Mas se assim não fizesse Nem dedicasse minha prece Não teria sequer descoberto A alegria por viver do amor.
Desde que li a versão infantil de As Vinte Mil Léguas Submarinas vertida pelo grupo Disney, sempre vi os polvos como animais enormes, assustadores e assassinos. A vida me ensinou que o simpático molusco é um animal inofensivo sendo predador apenas com peixes, que são seu alimento.
Anos e anos depois da obra de Verne e da adaptação de Disney, um novo polvo vem às manchetes fazendo sucesso não pela sua voracidade, mas por ser um vidente. O bicho se chama Paul e está num aquário na Alemanha e de lá fez previsões sobre alguns jogos do Mundial de futebol escolhendo entre duas caixas com as bandeiras dos desafiantes. Impressionantemente, ele acertou todos. Inclusive o que selou a desclassificação do país que o abriga. Sim, porque li que ele é inglês. E mesmo assim, vaticinou que a Inglaterra seria eliminada, como foi.
O percentual de acertos do polvo é absoluto. Acertou tudo! Nessa semana, véspera da final, decidiu que quem venceria entre Espanha e Holanda seriam os espanhóis. Em Madrid, litros de sangria esperam a hora de ser entornados. Que Paul esteja certo. Depois de prever a queda tanto do país natal quanto o que o exilou, ele tem muita sorte. Escapou de virar quitute no tal restaurante, certamente foi dado por expatriado pela Rainha e, em caso do único erro, pode ser requisitado como ingrediente mais disputado numa fatídica paella de consolação. Mas os números jogam a favor do bicho.
Tudo começou quando o técnico da Argentina, Diego Maradona, na sua fanfarronice peculiar, prometeu que, caso a Argentina fosse campeã, sairia pelado pelas ruas de Buenos Aires. Uma ideia bem estragada mesmo. A Copa começou, a Argentina foi muito bem, mas parou pela Alemanha que jogou convincentemente bem e mereceu a classificação obtida num dos maiores clássicos do futebol mundial. Por outro lado, o mundo respirou aliviado o não-cumprimento da promessa. Enquanto corria a Copa, a boa campanha portenha e a apreensão mundial com a possibilidade da promessa de Dom Diego restar frutífera, noutro país da América do Sul, menos famoso pelo futebol, o Paraguai, o mundo conheceu Larissa Riquelme, modelo que se destacou, além do rosto bonito, por uma fartura estrategicamente pontual. Bem como a Argentina, a seleção do país da moça também fez bela campanha na competição sendo eliminada no mesmo estágio que os argentinos. A diferença? Larissa, que havia prometido um ensaio sensual caso o Paraguai fosse bem na Copa, dobrou a aposta. Prometeu que posaria nua se o time chegasse às semifinais. Não chegou. Comoção mundial. O mundo não veria Larissa Riquelme como veio ao mundo. No entanto, consciente do que provocou, a mocinha resolveu ser mais transigente e anunciou que iria posar nua mesmo com o insucesso da equipe guarani que, diga-se, foi além das expectativas. E o lance de promessas insólitas de mulheres destilando seu fervor patriótico-futebolístico alcançou mesmo a fleumática Europa. Ao ver a seleção de sal país classificada, uma atriz holandesa de filmes adultos prometeu contemplar seus fãs de uma forma bem prazerosa a qual o cronista prefere não esmiuçar por respeito às leitoras mais conservadoras. Certamente, quem leu a notícia ou tem um potencial malicioso já deve saber do que se trata. A coisa é que, pela primeira vez, temos uma Copa em que a atenção sobra tanto para a torcida quanto para os atletas. Com o advento de sites de relacionamento como o próprio Twitter, o mundo se move em campanhas esdrúxulas como brincadeiras divertidas. Graças à Larissa Riquelme, por alguns jogos, o Paraguai, desconhecido de quase todo mundo, teve apoio mundial para o bom sucesso na competição. Inútil? A admiração por uma mulher bonita não pode ser relegada assim. Machista? Que as mulheres indignadas lançassem promessas mais válidas como distribuir alimentos à população carente do Paraguai, por exemplo. Infelizmente para alguns e felizmente para outros, as promessas menos nobres tomam a dianteira quando se trata de autopromoção. Que tal usar isso como estímulo para um contra-ataque de boas intenções, riqueza de espírito e grandes ideias? O meio existe e estás aí à espera de ser bem utilizado. Reclamar só é que não dá. Porque enquanto há uma justa indignação contra a coisificação da mulher, Larissa Riquelme estampa bancas paraguaias com o belo corpo e fãs holandeses se alistam para serem agraciados pela dita atriz. Pelo menos, Maradona não reviu sua intenção. Ainda bem. Francisco Libânio, 07/07/10, 2:30 PM
Que venha o abraço, o beijo e o mais Que vier... Tudo será maravilhoso. Amar E ser amado, qual maior definição de paz? Francisco Libânio, 08/07/10, 8:33 PM
Por que é, porque é tão difícil o amor Quando só amar não parece o bastante E mais que isso, é preciso a cada instante Provar que ele existe e, além, expor
Razões, ideias, filosofias ou o que for Para sustentar isso. Não basta ser amante, É preciso provas para que o amor suplante O outro amor provado que ele é maior
Não, não sei o quanto amo. E se for pouco? E se for demais e eu não puder amar a tanto? O amor sobrante, como o uso? Onde o coloco?
Eu sei que provas de amor são necessárias, Mas como amar assim, bom por enquanto Para ser pouco depois com exigências várias? Francisco Libânio, 07/07/1:35 PM
Acompanho Copas do Mundo regularmente e com interesse desde a de 1990, a fatídica em que o Brasil foi eliminado pela Argentina nas oitavas de final com gol do Caniggia e com o tardiamente lembrado episódio da água batizada distribuída pelos hermanos. Foi a coisa mais próxima de um pesadelo nacional. O pior deles seria uma vitória argentina contra o Brasil na final. Isso seria um cataclismo e não duvido da hipótese de suicídios coletivos de torcedores xiitas. Não aconteceu este ano. Mas a possibilidade de acontecer na próxima Copa. 2014, se estivermos vivos até lá, pode afogar o Brasil num mar de lágrimas com a ideia de um segundo Maracanazo. É um cenário terrível! Nenhum diretor de Hollywood pensaria em tamanha catástrofe. E não teria Bruce Willis, Vin Diesel ou Jack Bauer que salvasse o mundo disso. A menos, claro, que eles deixassem seu lado Felipe Melo para encarnar o lado Robinho. Com a bola nos pés e não uma granada nas mãos, diga-se. Mas pensar numa Copa no Brasil em que a seleção perdesse para a Argentina seria o estopim para uma revolução social. Cabeças rolariam, cartolas seriam executados em praça pública, volantes carniceiros e duros linchados por uma população feroz. Enquanto isso, do outro lado da fronteira, todos os anos de galhofa pesada, de piadas maldosas e de derrotas duramente impingidas seriam cobrados com juros e correção. Sem contar que eles poderiam aproveitar a deixa pra tomar nossas praias de vez reclamando inversão de posse já que movimentam suas economias. Melhor nem pensar nisso. Definitivamente.
É claro que Nietzsche nunca teria dito aquilo. Não o que o rapaz falou. Primeiro porque o bigodudo alemão nunca falaria sobre aquilo. Segundo porque o citador sequer leu um livro do mesmo em toda sua vida. Mas é claro que a citação conferia ao interlocutor certa grandiloqüência em sua opinião. E claro, quem iria discutir com Nietzsche? Naquela roda apartada da festa em que o uísque já dava a sua quarta dose pra cada um dos conferencistas é que não haveria homem pra isso. Mas o citador seguiu em suas parvoíces, claro, todas referendadas pelo filósofo.
Era o grande mal do rapaz. Adorava apelar pra filósofos, escritores, literatos e toda a sorte de intelectuais. Muitas vezes em horas inoportunas. Sem dúvida. Oscar Niemayer jamais teria dito qualquer coisa sobre a questão das células tronco. Tampouco Sartre falaria sobre a Guerra do Afeganistão. Mas na voz do nosso amigo que amava as citações, muitas inventadas, coadunadas aleatoriamente com o primeiro nome respeitoso que lhe passava, todos esses grandes mestres seriam responsáveis pelos maiores absurdos que o planeta teria ouvido. Sua intelectualidade aparente assustava os debatedores leigos. Ou seja, ganhava os colóquios nunca no grito já que treinara certa fleuma para soar mais convincente, mas simplesmente por falta de argumentação que lhe superasse.
Para os amigos, o citador era um baluarte do bom saber. Plural e eclético, qualquer assunto lhe saía bem da boca. Tido como homem de letras finas e leituras complexas, era rapidamente consultado para dirimir qualquer dúvida que surgisse entre eles. Para os desafetos, tratava-se de um sujeito pedante e sem qualquer brilhantismo além de ser desprovido de ideias próprias já que nunca expunha suas opiniões ou seus pareceres. Deixava que seus tutores intelectuais o fizessem. Muitas vezes desconfiavam do que dizia, mas lhes faltava cabedal para contestar.
Foi quando certa vez, num encontro entre amigos, sempre os mesmos, mas com um novato recém apresentado, um assunto mais denso caiu naquela roda de papo. O tema: Literatura russa. A questão? Qual dos dois era o maior expoente das letras daquele país Dostoievski ou Tolstoi? Os Irmãos Karamazov ou Guerra e Paz? Todos já tinham ouvido falar nas duas obras, mas nunca se aventuraram a lê-las. Fala que fala, nosso citador só escutava as arengas até que lhe foi perguntada a opinião:
- Eu guardo com muito respeito a opinião de Marx que dizia ter ido às lágrimas com a saga da família Karamazov. E se assim diz o velho Marx, quem sou eu, mero admirador tanto de Dostoievski quanto dele, para contestar?
Nisso, o novato fez algo que ninguém imaginou haver ousadia para fazer:
- Eu respeito muito a opinião de Marx, mas é preciso pesar também que seu grande colaborador, Engels, enquanto russo que era e, por isso conhecia de perto a realidade do país pré-revolução, tinha sem igual admiração por Tolstoi e só nisso discordava de Marx. Inclusive, é sabido que mesmo que Marx preferisse Dostoievski, foi de Guerra e Paz que ele tirou elementos preciosos para escrever o Manifesto do Partido Comunista.
O citador ficou impressionado. Ele e o seu colega de citações foram amigos para sempre e grandes admiradores um do outro. Finalmente havia alguém para conversar num mesmo nível. Claro que ninguém naquela roda onde surgiu tamanha admiração se lembrou que Engels nunca foi russo e que entre a obra comunista e o romance russo havia mais de vinte anos separando. Meros detalhes.