Um dia pensei que ser poeta
fosse pegar palavras e rimar.
Rimei duas. Certo. A continuar,
rimei mais. A cada rima correta
um passo, mas era de estranhar
que a estrofe rimada assim, reta,
não era uma poesia, mas a abjeta
pretensão de quem quis cantar
sem ter em si qualquer emoção.
Rimado, mas sem algum sentimento,
Frases que eram levadas pelo vento.
Até que o dei pra ouvir o coração,
pensar com amor e viver com alegria
e desde então fui escrevendo poesia.
Francisco Libânio
Deus, quando fez a mulher disse: Doçura, Entrarás primeiro e terás a melhor morada. Para dizer: Compreensão, faz acompanhada E protege tua colega para lhe deixar segura
Neste corpo. E convocou também a ventura, A bondade, a sensibilidade e a abençoada Vocação de ser mãe além de uma selecionada Quantidade de virtudes e por esta abertura,
Numa distração de Deus, entraram a luxúria, A sensualidade e, acobertadas pela beleza, Usariam as virtudes para uma intenção espúria,
Mas as virtudes, sábias, já tinham pensado além, Deixaram as más usar a mulher para a vileza Para a partir do mal converter tudo para o bem. Francisco Libânio, 06/05/10, 10:50 PM
Ah, o decote, este bandido de dupla atividade Ora escondendo, mas à revelação um convite Ora revelando enquanto sugere e pede palpite Esperando angelicalmente vir alguma maldade
Para que ele possa acusar bem como obstruir O que ele mais deseja: Revelar o que segura, Mas espera ser convencido com a palavra pura Sendo subterfúgio para o fogo louco a consumir
O corpo no qual ele é empecilho pouco e aparente, Mas que cumpre seu papel honesta e dignamente Querendo mais ser dispensado deste árduo labor
Ah, decote... Sabemos que te quero jogado no chão, Por isso te dispenso, peço que vá para a posição Em que possas ser testemunha do iminente amor.
Menino chegou em casa com uma cara um terço assustada, um terço impressionada e um terço feliz. Não conseguiu segurar e foi falar com sua mãe:
- Mamãe, acabei de ver um ciclope vendo revista de mulher pelada e fumando charuto!
A mãe quebrou o prato que lavava:
- Que história é essa, Pedro Augusto?
- É, sim, mamãe. Ele até me mostrou a revista. Era de uma loira altona, cabelo liso, peitão...
Um croque materno fez com que o menino cessasse a descrição. Onde já se viu?
- Deixa de conversa, Pedro Augusto! Ciclopes não existem. Como um ia ler uma revista de mulher pelada? Onde você viu isso?
- Na despensa, lá fora, mamãe.
Agora foi. A história toda se deu na casa, no sacrossanto lar dessa pacata família avessa a mitologias. A mãe recobrou a calma. Não podia desfazer assim da fantasia do filho. Mas precisou explicar que para tudo havia hora. Serenados os ânimos, a história caiu no esquecimento e a mãe, a fim de incutir responsabilidades no filho, mandou-o fazer algumas compras na mercearia. Ele comprou e devia guardá-las. Na volta, o menino conta:
- Mamãe, agora o ciclope estava lendo outra revista de mulher pelada e tomando cerveja!
Outra vez? Esse menino estava passando dos limites! Decidiu que ele não ia mais ver televisão até tarde. Nem com os pais. Ela tentou ser uma mãe moderna, mas é preciso impor limites ou esse garoto passaria por mentiroso. Ou por maluco. Mandou o menino fazer o dever de casa e não queria mais ouvir falar nisso.
E até a noite, já com o pai em casa, não se falou mais em ciclope. Pôs o menino para dormir quando depois do beijo de boa noite, ele perguntou:
- Mamãe, e o ciclope?
- Dorme, Pedro Augusto!
A mulher foi pra cama matutando. Resolveria as visões do filho no dia seguinte enquanto ele estivesse na escola. E assim fez. Saiu e foi contar para um amigo o caso todo.
- E o senhor acha isso certo? Me responda!
- Olha, dona Maura, o menino precisa aprender as coisas da vida.
- Mas ele tem só oito anos! Assim ele fica assustado e aprende as coisas de forma errada. Agradeço sua preocupação com a educação do garoto, mas dessa parte cuido eu, tá bom?
- Desculpe, a senhora tem razão.
- Então, que isso não se repita.
- Pode deixar, desculpe mais uma vez.
Ela ia saindo quando se lembrou de algo:
- E tem mais uma coisa!
- O quê?
- Que o senhor veja as revistas do meu marido, tudo bem, eu não me importo. Mas quando quiser beber cerveja, peça antes. Odeio gente bêbada. Agora, se eu pegá-lo fumando esses charutos fedorentos outra vez, eu me esqueço que o senhor tem dois metros e meio de altura e força sobre-humana e furo esse seu olho, está me ouvindo?
Não que a virtude seja algo a ser esquecido Ou que os bons valores deixem de bem valer Nem que o mal contra o bem tenha vencido, Ele jamais vencerá e nem nunca irá vencer
Não, não quero ser pelo Mal pego e seduzido Nem deixar que más idéias venham acometer Meu dia-a-dia normal, mas por elas sugerido A coisas menos ortodoxas atrás só de prazer
Resisto, combato, enfrento e não dou ouvidos, Minha vida pacata não é santa nem monástica Mas tento afastá-la de qualquer pecado capital
Só tombo quando estamos eu e ela envolvidos Num abraço e me toma uma sensação fantástica Que até peco, mas com ela isso se torna divinal.
Eles querem que pensemos o que for deles E dizem que, para nós, isso é o melhor, Eles querem que vistamos as suas peles, Querem nos moldar e querem nos compor
Eles querem que não sejamos diferentes, Querem igualdade e querem mente vazia E assim, evitar o risco de haver dissidentes Para que eles possam enchê-las dia após dia
De tudo o que eles querem e julgam certo Pensamentos, ideias, gostos e convicções; Preconceitos e torpezas; isso tudo coberto
Com uma essência de sabedoria irrefutável, Mas a alguns, tantas incongruências e incorreções Incomodam, mas aquietar-se é mais agradável.