segunda-feira, 9 de novembro de 2009

50 - Quantos nomes eu queria que tivesse



Quantos nomes eu queria que tivesse
Esse simples ato de beijar tua boca
Durante o abraço, mas um que eu desse
Seria grande em escrita e teria pouca

Significação real. Um beijo e um abraço,
Substantivos simples e em si abstratos,
Mas quando nossos e concretos num espaço
Real, de palavras se fazem em fatos

É pouco o que diz deles o dicionário
E não me venha um filólogo ordinário
Criar um neologismo deste meu instante.

Se ele é meu e se eu não lhe dei um nome
Não é falta de idéia. O fato me consome
E a ser poeta, nessa hora, prefiro ser amante.

Francisco Libânio,
07/08/09, 12:10 AM

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Samba do Passarinho



E o Altamirano, hein? Sujeito que tinha aquele dom da simpatia criativa que nasce com muitos e é aprimorado por poucos era um sambista de porta de boteco que não teve a sorte de ser encontrado por um figurão. Se ao invés de fazer seus batuques e suas rimas no Bar do Mirto os fizesse no Bar da Brahma, no cruzamento da São João com a Ipiranga, seria o novo Zeca Pagodinho. Mas onde ele os fazia era ruim de pintar um empresário influente ou um bonito que conhecesse o produtor do Domingão do Faustão. Achavam que o Altamirano ligava pra isso? Pois, ligava! E muito. Essa coisa de trabalhar como porteiro naquele prédio comercial não era a pior do mundo, mas o salário deveria ser condenado pela Convenção de Genebra. E ele via no domingão aquela turma de pagodeiro pastinha fazendo sambinha de quinta enquanto ele nada. O Altamirano não era do tipo que se gabava. Nunca pleiteou o prêmio de Porteiro do Ano, de Operário Padrão, de Honra ao Mérito. Era discreto até. Mas quando tratava de samba, mandava a modéstia pra casa do chapéu e dizia consigo mesmo:

- Eu não sou o Cartola, mas sou melhor que essa molecadinha de condomínio fabricada aí.

E era mesmo. Os amigos do boteco se cotizaram várias vezes pra tentar alçar a vôos mais altos o mais talentoso dos assíduos do Bar do Mirto. Uns concursos de talentos que rolaram, inscreveram o Altamirano, mas ele nem passou dos testes. Essa turma não entende pipocas de samba. E o Altamirano curtia no cavaquinho a fossa de não ser olhado pela sorte.

Aí, aconteceu que o Altamirano ficou umas duas semanas, três talvez, sem aparecer no boteco pra tomar uma com os amigos. Deixou saudade dos sambas que criava na hora.

- Fala dessa morena que chegou.

- Altamirano, rolou uma treta assim e assim comigo, dá samba?

Tudo era mote para um refrão, uma paródia, algo realmente interessante, mas já fazia tempo que o Altamirano não dava as caras no bar. Um dia, alegria geral. Aparece o sambista no meio da roda, pede a de sempre e anuncia:

- Eu andei meio afastado porque acordei dia desses com uma idéia, um samba que vai me tirar do anonimato. Esse eu vou divulgar, gravar, entregar fita em tudo que é lugar pra que me conheçam. Chama Samba do Passarinho. Até escrevi a letra. – e tirou um almaço dobrado do bolso.

Pra turma isso foi, simplesmente, sensacional. Se quando improvisava, o Altamirano arrebentava a boca do balão, imagina o que não sairia se ele resolvesse trabalhar numa coisa sua? De escrever, reescrever, apagar, encaixar, metrificar... O pessoal era unânime. Vinha aí uma sinfonia de entrar pra história. Já se gastou demais em conversa fiada, mandaram o Altamirano mostrar logo o samba pra galera. E ele fez aquele charme de “minha voz não tá lá essas coisas, mas nada que uma molhada no bico não resolva”. Uma golada na cerveja e o Samba do Passarinho saiu pra apreciação pública.

No pam-pam final, silêncio. Aquela coisa que chegava a ser incômoda, mas – diferente de sempre – não rolou um aplauso, um viva, um bravo. Consternação geral. Ninguém falava nada até que um valente resolveu se pronunciar:

- Tamirano... Isso tá uma droga! – O veredicto foi a locomotiva de iguais impressões.

- Minha avó escreve coisa melhor que essa joça!

- Nojento!

- Tanto tempo pra isso?!

O apupo foi geral. Altamirano decidiu que nunca mais ia pegar num cavaquinho na vida. Ia ser porteiro até o fim dos dias porque, se quando ele faz a coisa de instantâneo e sai coisa boa, ele arrasa e quando lapida sai um monstro, melhor deixar pra lá. Empresário nenhum ia querer saber disso e ele ainda corria risco de levar umas bolachas.


Acham que acabou? Não acabou, não. Altamirano matou o Passarinho e a folha e jogou longe os dois. Continuou sendo porteiro e bebendo com os amigos no Bar do Mirto. Acontece que o cara que fez o primeiro comentário pegou o papel, guardou, na moita, e no dia seguinte o passou pra um amigo seu que maltratava um pandeiro. Mudou uma palavrinha aqui outra lá, substituiu todos os “minha nêga” por “minha pombinha” e, de Samba do Passarinho, mudou o nome pra Samba da Minha Pombinha. Hoje seu amigo é dado como o futuro do pagode e ele ganha vinte por cento do cachê de cada show.


Francisco Libânio,

23/10/09, 10:35 AM


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Urubu


Filho chegou com a notícia pra mãe. Tinha achado um bichinho de estimação. A simpatia meiga pela alegria pueril do filho acabou quando o bichinho entrou em casa. Era um urubu gordo, cabeça pelada, andando caindo. Um monstro. A mãe vetou os projetos do filho:

- Aqui não fica!

E não adiantou a argumentação embasada do menino, que já previra essa repentina antipatia pelo bichinho. Nem a lembrança de que na escola todo mundo tinha um bichinho de estimação. Quando não era um gato ou um cachorro, era um passarinho, um papagaio, um periquito, uma calopsita. Até o iguana do Danielzinho da sétima série foi arrolado como atenuante para o urubu. A mãe era inflexível. Restou ao menino a mais drástica das suas táticas: O choro. E aí, a mãe viu o quanto lhe faltou umas chineladas. E não seria o urubu testemunha nem causa delas. O bichão foi admitido na casa.

O pai quando viu aquilo se sentiu repugnado. No dia seguinte, Candinha se benzia cada vez que passava pela ave empoleirada (provisoriamente, dizia-se) no parapeito do apartamento. E o urubu terminou virando bicho de madame mesmo. Carniça? De jeito nenhum. Ainda que fosse a último, mas sempre havia um bife pra ele. Aos poucos, a família foi se afeiçoando àquela simpática ave necrófaga, que desde então nunca mais comera um cadáver em sua vida.

Um dia, o cachorrinho do casal do prédio da frente apareceu morto. As suspeitas logo apontaram para o urubu. Eram vizinhos de janela. O cachorrinho latia para o outro quando o via. Nada mais normal que a ave, cansada de tanta afronta em língua desconhecida, fosse às vias de fato. A reação correu como pólvora:

- Crucifiquemos o urubu do 407!

- Nossos filhos correm perigo!

- Ele também comeu o meu hamster.

Esse foi desmascarado. O bicho estava escondido debaixo do sofá e apareceu.

Mas o urubu estava numa enrascada acusado de um crime sem qualquer prova concreta. Pensou-se até num tribunal para o assassino. Com júri e tudo o mais. Chamaram até legista pra exumar o cadáver. Mas se cada louco tem sua mania e uns criam urubus, outros resolvem embalsamar cachorros. Pois é. O morto, tido como o filho mais novo da casa, não foi enterrado. Resolveram empalhá-lo pra colocar na sala de estar “Em memória de...” Só que o casal era famoso por sua mão fechada. A contratar um profissional sério do ramo da taxidermia preferiram pegar o primeiro que cobrasse o preço mais camarada. Não importava que ele nunca tivesse visto bicho empalhado nem em museu de história natural. Resultado: O filho mais novo fedia morto tanto quanto em vida. Como fizeram da casa da vítima o fórum do julgamento, o juiz escolhido suspendeu a sessão por completa insalubridade. Não ficou vivalma no apartamento do 409 do bloco B. Minto. Ficou uma. O cheiro pútrido despertou no réu, já acostumado às molezas de mascote de classe média, seus instintos mais selvagens. Daí, a família voltou pra salvar o que restava do cachorrinho. Encontraram o urubu morto. Causa-mortis: envenenamento. Parece que andaram dando umas balinhas suspeitas para o cachorro. Quem teria sido? Ele latia e parturbava tanto e fazia tanta sujeira que metade do condomínio teria motivos pra isso. O caso foi encerrado e nunca mais se falou nisso.


Francisco Libânio,

21/10/09, 1033 AM

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Das Aparências


Extraído de http://anotacoesdebolso.files.wordpress.com/2009/07/alma-vazia1.jpg

Pão bolorento dentro de bela viola,
O bonito que parece ter em si tudo
Cai no chão, se faz ao ar o conteúdo
Mesmo assim, ele ainda faz escola

Francisco Libânio,
22/10/09, 10:16 AM

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A alma das poesias é a mão do poeta


Extraído de http://amadeo.blog.com/repository/306019/2672386.jpg

A alma das poesias é a mão do poeta,
Mas o poeta, ao dar a elas uma vida,
Perde um pouco da sua. Uma vez lida,
A poesia prescinde dele e decreta

Sua existência autônoma e concreta.
Ela existe e toma sua a alma abstraída
De quem a escreveu para, em seguida,
Tornar sua existência válida e completa.

Assim quem a lê gosta dela e se inspira;
Se puder, cria uma, a filha dessa poesia,
Seguindo-se essa estranha genealogia.

O poeta, pai da primeira, não se admira
Com a filha que lhe roubou a alma em parte,
Mas cria outras e com elas se reparte.

Francisco Libânio,
21/10/09, 10:58 PM

terça-feira, 20 de outubro de 2009

As noites frias


Extraído de http://www.provasdeamor.com/fotos/mensagens/8C6E3.jpg

As noites frias são aquela coisa: Inspiradoras
Enquanto pedem um calor a dois, também
Podem ser tristes. Quer-se consigo um alguém
Para que passem melhor estas frias horas

E da janela eu vejo pernas que aparecem
Logo depois a dona, mulher de mechas loiras,
Mas cabelos negros, tranquilamente vem
Trazendo no olhar idéias das mais sedutoras

Vem como se eu a esperasse por convidada,
Está à minha porta, e – surpresa – não bate.
Para e fica ali me olhando totalmente parada.

Realmente são inspiradoras as noites frias...
Só elas pra me forjarem dama de tal quilate
Quando daria o mundo por tais companhias

Francisco Libânio,
20/10/09, 8:28 PM

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Quadras de esperança


Extraído de https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgr8AwthPJmfL0w0Mmtz9-HsXDgGdLWs7-2kocQRGg6883DjPH33yPgdj5Guzje54u-nRuW2MlBMNKY8-RRvw9mimrKgBjDbizrZqhaJji-YJ_CAw8JGidgpNgIHZpITj7yfnnddpiwraQ/s400/deserto.jpg
Não que eu não seja de tudo descrente,
Minha crença tem o tamanho do meu dia
E meu dia encontra uma noite pela frente
E a noite apaga tudo. Assim onde havia

Um sonho há agora algo que não se fia
Na minha capacidade. Em minha mente
Apenas o que era. O futuro se desanuvia,
Um deserto manda que eu o enfrente.

Assim, num deserto, como posso acreditar
Que além dele virá algo que não é deserto?
Como imaginarei que há um algum lugar
Que não seja o que é igual ao que é perto?

Não sei como o farei, mas farei, isso é certo!
Um resto de esperança ainda haverá de brotar
E não sei por que, mas, vejo que neste deserto
Timidamente, a paisagem começa a mudar.

Francisco Libânio,
19/10/09,
7:16 PM