Um dia pensei que ser poeta
fosse pegar palavras e rimar.
Rimei duas. Certo. A continuar,
rimei mais. A cada rima correta
um passo, mas era de estranhar
que a estrofe rimada assim, reta,
não era uma poesia, mas a abjeta
pretensão de quem quis cantar
sem ter em si qualquer emoção.
Rimado, mas sem algum sentimento,
Frases que eram levadas pelo vento.
Até que o dei pra ouvir o coração,
pensar com amor e viver com alegria
e desde então fui escrevendo poesia.
Francisco Libânio
Quantos nomes eu queria que tivesse Esse simples ato de beijar tua boca Durante o abraço, mas um que eu desse Seria grande em escrita e teria pouca
Significação real. Um beijo e um abraço, Substantivos simples e em si abstratos, Mas quando nossos e concretos num espaço Real, de palavras se fazem em fatos
É pouco o que diz deles o dicionário E não me venha um filólogo ordinário Criar um neologismo deste meu instante.
Se ele é meu e se eu não lhe dei um nome Não é falta de idéia. O fato me consome E a ser poeta, nessa hora, prefiro ser amante. Francisco Libânio, 07/08/09, 12:10 AM
E o Altamirano, hein? Sujeito que tinha aquele dom da simpatia criativa que nasce com muitos e é aprimorado por poucos era um sambista de porta de boteco que não teve a sorte de ser encontrado por um figurão. Se ao invés de fazer seus batuques e suas rimas no Bar do Mirto os fizesse no Bar da Brahma, no cruzamento da São João com a Ipiranga, seria o novo Zeca Pagodinho. Mas onde ele os fazia era ruim de pintar um empresário influente ou um bonito que conhecesse o produtor do Domingão do Faustão. Achavam que o Altamirano ligava pra isso? Pois, ligava! E muito. Essa coisa de trabalhar como porteiro naquele prédio comercial não era a pior do mundo, mas o salário deveria ser condenado pela Convenção de Genebra. E ele via no domingão aquela turma de pagodeiro pastinha fazendo sambinha de quinta enquanto ele nada. O Altamirano não era do tipo que se gabava. Nunca pleiteou o prêmio de Porteiro do Ano, de Operário Padrão, de Honra ao Mérito. Era discreto até. Mas quando tratava de samba, mandava a modéstia pra casa do chapéu e dizia consigo mesmo:
- Eu não sou o Cartola, mas sou melhor que essa molecadinha de condomínio fabricada aí.
E era mesmo. Os amigos do boteco se cotizaram várias vezes pra tentar alçar a vôos mais altos o mais talentoso dos assíduos do Bar do Mirto. Uns concursos de talentos que rolaram, inscreveram o Altamirano, mas ele nem passou dos testes. Essa turma não entende pipocas de samba. E o Altamirano curtia no cavaquinho a fossa de não ser olhado pela sorte.
Aí, aconteceu que o Altamirano ficou umas duas semanas, três talvez, sem aparecer no boteco pra tomar uma com os amigos. Deixou saudade dos sambas que criava na hora.
- Fala dessa morena que chegou.
- Altamirano, rolou uma treta assim e assim comigo, dá samba?
Tudo era mote para um refrão, uma paródia, algo realmente interessante, mas já fazia tempo que o Altamirano não dava as caras no bar. Um dia, alegria geral. Aparece o sambista no meio da roda, pede a de sempre e anuncia:
- Eu andei meio afastado porque acordei dia desses com uma idéia, um samba que vai me tirar do anonimato. Esse eu vou divulgar, gravar, entregar fita em tudo que é lugar pra que me conheçam. Chama Samba do Passarinho. Até escrevi a letra. – e tirou um almaço dobrado do bolso.
Pra turma isso foi, simplesmente, sensacional. Se quando improvisava, o Altamirano arrebentava a boca do balão, imagina o que não sairia se ele resolvesse trabalhar numa coisa sua? De escrever, reescrever, apagar, encaixar, metrificar... O pessoal era unânime. Vinha aí uma sinfonia de entrar pra história. Já se gastou demais em conversa fiada, mandaram o Altamirano mostrar logo o samba pra galera. E ele fez aquele charme de “minha voz não tá lá essas coisas, mas nada que uma molhada no bico não resolva”. Uma golada na cerveja e o Samba do Passarinho saiu pra apreciação pública.
No pam-pam final, silêncio. Aquela coisa que chegava a ser incômoda, mas – diferente de sempre – não rolou um aplauso, um viva, um bravo. Consternação geral. Ninguém falava nada até que um valente resolveu se pronunciar:
- Tamirano... Isso tá uma droga! – O veredicto foi a locomotiva de iguais impressões.
- Minha avó escreve coisa melhor que essa joça!
- Nojento!
- Tanto tempo pra isso?!
O apupo foi geral. Altamirano decidiu que nunca mais ia pegar num cavaquinho na vida. Ia ser porteiro até o fim dos dias porque, se quando ele faz a coisa de instantâneo e sai coisa boa, ele arrasa e quando lapida sai um monstro, melhor deixar pra lá. Empresário nenhum ia querer saber disso e ele ainda corria risco de levar umas bolachas.
Acham que acabou? Não acabou, não. Altamirano matou o Passarinho e a folha e jogou longe os dois. Continuou sendo porteiro e bebendo com os amigos no Bar do Mirto. Acontece que o cara que fez o primeiro comentário pegou o papel, guardou, na moita, e no dia seguinte o passou pra um amigo seu que maltratava um pandeiro. Mudou uma palavrinha aqui outra lá, substituiu todos os “minha nêga” por “minha pombinha” e, de Samba do Passarinho, mudou o nome pra Samba da Minha Pombinha. Hoje seu amigo é dado como o futuro do pagode e ele ganha vinte por cento do cachê de cada show.
Filho chegou com a notícia pra mãe. Tinha achado um bichinho de estimação. A simpatia meiga pela alegria pueril do filho acabou quando o bichinho entrou em casa. Era um urubu gordo, cabeça pelada, andando caindo. Um monstro. A mãe vetou os projetos do filho:
- Aqui não fica!
E não adiantou a argumentação embasada do menino, que já previra essa repentina antipatia pelo bichinho. Nem a lembrança de que na escola todo mundo tinha um bichinho de estimação. Quando não era um gato ou um cachorro, era um passarinho, um papagaio, um periquito, uma calopsita. Até o iguana do Danielzinho da sétima série foi arrolado como atenuante para o urubu. A mãe era inflexível. Restou ao menino a mais drástica das suas táticas: O choro. E aí, a mãe viu o quanto lhe faltou umas chineladas. E não seria o urubu testemunha nem causa delas. O bichão foi admitido na casa.
O pai quando viu aquilo se sentiu repugnado. No dia seguinte, Candinha se benzia cada vez que passava pela ave empoleirada (provisoriamente, dizia-se) no parapeito do apartamento. E o urubu terminou virando bicho de madame mesmo. Carniça? De jeito nenhum. Ainda que fosse a último, mas sempre havia um bife pra ele. Aos poucos, a família foi se afeiçoando àquela simpática ave necrófaga, que desde então nunca mais comera um cadáver em sua vida.
Um dia, o cachorrinho do casal do prédio da frente apareceu morto. As suspeitas logo apontaram para o urubu. Eram vizinhos de janela. O cachorrinho latia para o outro quando o via. Nada mais normal que a ave, cansada de tanta afronta em língua desconhecida, fosse às vias de fato. A reação correu como pólvora:
- Crucifiquemos o urubu do 407!
- Nossos filhos correm perigo!
- Ele também comeu o meu hamster.
Esse foi desmascarado. O bicho estava escondido debaixo do sofá e apareceu.
Mas o urubu estava numa enrascada acusado de um crime sem qualquer prova concreta. Pensou-se até num tribunal para o assassino. Com júri e tudo o mais. Chamaram até legista pra exumar o cadáver. Mas se cada louco tem sua mania e uns criam urubus, outros resolvem embalsamar cachorros. Pois é. O morto, tido como o filho mais novo da casa, não foi enterrado. Resolveram empalhá-lo pra colocar na sala de estar “Em memória de...” Só que o casal era famoso por sua mão fechada. A contratar um profissional sério do ramo da taxidermia preferiram pegar o primeiro que cobrasse o preço mais camarada. Não importava que ele nunca tivesse visto bicho empalhado nem em museu de história natural. Resultado: O filho mais novo fedia morto tanto quanto em vida. Como fizeram da casa da vítima o fórum do julgamento, o juiz escolhido suspendeu a sessão por completa insalubridade. Não ficou vivalma no apartamento do 409 do bloco B. Minto. Ficou uma. O cheiro pútrido despertou no réu, já acostumado às molezas de mascote de classe média, seus instintos mais selvagens. Daí, a família voltou pra salvar o que restava do cachorrinho. Encontraram o urubu morto. Causa-mortis: envenenamento. Parece que andaram dando umas balinhas suspeitas para o cachorro. Quem teria sido? Ele latia e parturbava tanto e fazia tanta sujeira que metade do condomínio teria motivos pra isso. O caso foi encerrado e nunca mais se falou nisso.
Pão bolorento dentro de bela viola, O bonito que parece ter em si tudo Cai no chão, se faz ao ar o conteúdo Mesmo assim, ele ainda faz escola Francisco Libânio, 22/10/09, 10:16 AM
Extraído de http://amadeo.blog.com/repository/306019/2672386.jpg
A alma das poesias é a mão do poeta, Mas o poeta, ao dar a elas uma vida, Perde um pouco da sua. Uma vez lida, A poesia prescinde dele e decreta
Sua existência autônoma e concreta. Ela existe e toma sua a alma abstraída De quem a escreveu para, em seguida, Tornar sua existência válida e completa.
Assim quem a lê gosta dela e se inspira; Se puder, cria uma, a filha dessa poesia, Seguindo-se essa estranha genealogia.
O poeta, pai da primeira, não se admira Com a filha que lhe roubou a alma em parte, Mas cria outras e com elas se reparte.
As noites frias são aquela coisa: Inspiradoras Enquanto pedem um calor a dois, também Podem ser tristes. Quer-se consigo um alguém Para que passem melhor estas frias horas
E da janela eu vejo pernas que aparecem Logo depois a dona, mulher de mechas loiras, Mas cabelos negros, tranquilamente vem Trazendo no olhar idéias das mais sedutoras
Vem como se eu a esperasse por convidada, Está à minha porta, e – surpresa – não bate. Para e fica ali me olhando totalmente parada.
Realmente são inspiradoras as noites frias... Só elas pra me forjarem dama de tal quilate Quando daria o mundo por tais companhias Francisco Libânio, 20/10/09, 8:28 PM
Um sonho há agora algo que não se fia Na minha capacidade. Em minha mente Apenas o que era. O futuro se desanuvia, Um deserto manda que eu o enfrente.
Assim, num deserto, como posso acreditar Que além dele virá algo que não é deserto? Como imaginarei que há um algum lugar Que não seja o que é igual ao que é perto?
Não sei como o farei, mas farei, isso é certo! Um resto de esperança ainda haverá de brotar E não sei por que, mas, vejo que neste deserto Timidamente, a paisagem começa a mudar. Francisco Libânio, 19/10/09, 7:16 PM