Um dia pensei que ser poeta
fosse pegar palavras e rimar.
Rimei duas. Certo. A continuar,
rimei mais. A cada rima correta
um passo, mas era de estranhar
que a estrofe rimada assim, reta,
não era uma poesia, mas a abjeta
pretensão de quem quis cantar
sem ter em si qualquer emoção.
Rimado, mas sem algum sentimento,
Frases que eram levadas pelo vento.
Até que o dei pra ouvir o coração,
pensar com amor e viver com alegria
e desde então fui escrevendo poesia.
Francisco Libânio
De barro se montou e se encheu, Num sopro, abriu os olhos e viveu. Obra prima, divina semelhança Humana com imperfeições futuras, O homem deitou-se qual criança E auto-investido de poder, brincou de Deus Dando nome às criaturas. Francisco Libânio, 23/07/09, 11:37 PM
Amaro Amor de influências permanentes, Dores profundas e eternas lembranças, Diz como viver a ti em minhas andanças E como revives dias idos nos presentes
Eu devo a ti homenagens entrementes Teus augúrios suscitassem esperanças Que não brotaram. Já planejei vinganças Contra ti, já te vi com os olhos quentes
Da brasa da mágoa, mas quem sou eu, Homem ingrato agora contra tuas decisões Após tantas e bem injustas bonificações?
Amaro Amor, se me tomaste o que é meu, Não te pergunto o porquê. Houve razão, Mas peço-te pelo tomado uma compensação Francisco Libânio, 16/09/09, 11:56 AM
Não dependia de mim não ser poeta. Por mim, eu não seria. Nunca quis, Escrevia sem saber falar como os doutores Quem era eu pra incomodar os autores, Verdadeiros poetas?, mas lá fui eu de feliz. Li um, li dois e, atrevido, tomei uma caneta, Escrevi uma quadrinha e outras mais E quando não quis ser poeta... Era tarde demais. Francisco Libânio, 20/07/09, 12:01 AM
Ousou dizer um palavrão como bendissesse A melhor das sortes ao melhor amigo. A grosseria lhe escapou deste abrigo Incômodo que era a vergonha. Houvesse
Rompido antes a casca em que era envolta, A grosseria deixaria ovos já eclodidos, Seria mãe de outros nomes proibidos E sua genética estúpida e suja estaria à solta.
Mas, ao mesmo tempo em que se arrependeu, ele, De falar o indevido, aliviou a alma reprimida E nunca algo condenável lhe fez tanto bem
Assim, quando se ferve, um palavrão expele, Deixando correr a raiva em si contida Pedindo perdão pelo nome feio a alguém Francisco Libânio, 20/07/09, 9:26 AM
Meu francês não é coisa que preste, Já foi melhor. Meu inglês sabe ler, mas não é de falar, Medo de se expor. Meu espanhol é vivo, mas até que se desperte Vai tempo maior. Meu lado poliglota, então, deu de votar E em três votos a um, esta (in) culta maioria Mandou meu português escrever esta poesia. Francisco Libânio, 14/07/09, 1:55 PM
Estou no ônibus, voltando pra casa. São algo como nove e meia da noite quando o carro para numa das avenidas mais movimentadas de Prudente e sobem duas mulheres, mãe e filha, negras, bonitas. Uma aparenta ter seus trinta e tantos anos. A mãe aparenta ter cinqüenta, sessenta, mas sempre com o fisionomia de alguns anos menos que a melanina preserva. Sentam-se à minha frente e, num ônibus vazio e noite sem trânsito, fica fácil ouvir a conversa. A filha conta à mãe de um rapaz com quem esteve há pouco. Se namorado ou um amigo não saiu. E conta de uma boa conversa que tiveram até a mãe chegar. Parece que elas sem encontrariam, iriam fazer compras e voltariam pra casa. A mãe pergunta alguma coisa sobre o moço (devem ser só amigos mesmo) e é respondida. Mas só trivialidades, coisas cotidianas, aquelas de pessoas que se conheceram no carrinho de bebê enquanto as mães conversavam na praça. Aí a filha pergunta algo sobre a mãe, onde ela estava antes de se encontrarem.
- Fui ver meu preto. – Responde a mãe com um sorriso de lado a lado.
E a filha solta aquele olhar cúmplice de “A senhora, hein?”. Pode parecer impressão, mas o que ficou é isso. A filha, mais jovem, mais bonita – que deu a entender na conversa ser solteira, mas não à solta – poderia até ter lá seus namoros, mas não foi o que ela foi fazer àquela hora. A mãe, senhora de mais idade, óculos, jeito de ser recatada e carinha de avô bonachona que adora pegar neto no colo, estava namorando e estava toda pimpona com o encontro. Gerações distintas de comportamentos inversos? Não. Mulheres corretas, discretas e satisfeitas cada qual com seu encontro com um homem. Mãe e filha contentes por ver uma à outra que a tarde que tiveram foi muito bem aproveitada.